terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mendigo, mendiga...

Eram 3:48 da madrugada. Sexta-feira. As ruas estavam prontas para a ressaca de sábado, todas sujas com as histórias bêbadas do povo que sai baratinar a rotina. Todos têm esse direito. O abandono do Mercado Municipal se torna o covil perfeito para o nascimento das mais desregradas e espantosas cenas. Depois do baque do crack, Santinha só pensava em fumar mais e transar.

Vamo ali no canto.
Vamo.

Quatro meses depois, Santinha já tinha dificuldades para caminhar por Ponta Grossa. Pelo menos não se preocuparia mais com menstruação. Odiava sair sangrando pelas ruas. A barriga crescia e a necessidade de alimentar mais um ser começava a dar o ar da graça. O sopão da casa da irmã Scheila passou a ser indispensável. Santinha passava lá todo dia lá pelas nove da manhã, de ressaca ou não. A esquina ficava cheia de mendigos, cada um com a sua história e a sua barriga vazia. Muitas gaiotas.

Depois de comer , Santinha saía perambulando pela cidade. Cada dia com uma pessoa diferente. Fumavam crack, mendigavam, andavam pelo centro incomodando as campanhas políticas.

Na maior parte do dia, Santinha era alheia à barriga que crescia. Pensava só na barriga vazia. Era óbvio que a barriga incomodaria logo, não por estar vazia, justamente o contrário. Mas mãe, ainda mais de primeira viagem, tende a preocupar-se pelo menos um pouco com a vida do feto. Com o quinto mês chegando, Santinha realmente se deu conta de que já era mãe.

Pensava seriamente em parar de fumar crack, mas só pensava. Pensava em como nasceria o filho, nos problemas posteriores, mas os rápidos intervalos em que não tinha a droga espantavam essas preocupações, deixando a cabeça com outras. Na praça deve ter algum moleque vendendo.

Saiu pedindo dinheiro, e em menos de uma hora conseguiu o necessário. Escondeu-se e fumou, sozinha. O cachimbo havia ficado ridículo. Como havia pouco tempo que fumava,  mal sabia fazer seu próprio cachimbo. Mas deu certo. E os efeitos da droga vieram muito fortes. Paranoias dantescas, principalmente quando se dava conta de que já era mãe. Pensava seriamente em aborto para poupar a criança da vida sofrida que vinha a galope, sem escapatória. Se perguntava se nasceria menino ou menina. Se fosse menino teria o nome de Jackson, se o contrário, Elis. Se menino, ela queria que fosse genioso. Um mendigo que briga mesmo sem cachaça. Se menina, que fosse bonitinha a ponto de ser disputada a tapa pelos outros mendigos. Não importava. Fosse o que fosse, seria macho. Afinal, mendigos são mendigos. Para os outros, até mendigas são mendigos.

Chegou o sétimo mês. Santinha já estava enorme. Precisava de mais de um papelão pra dormir. Um boa-alma lhe deu um cobertor de casal. Uma boa-alma compadeceu-se e deu-lhe uma touca. Itens indispensáveis no inverno das ruas pontagrossenses. A barriga a obrigava a pensar mais na criança. Duas bocas para alimentar, mais papelões para dormir, ensinar a mendigar, lidar com os cães da rua, intolerância dos que têm dinheiro. Considerou pela enésima vez a ideia do aborto. O desejo de criar um mendigo não nasce em ninguém, mas com sete meses de vida, eles já brigam por esta, mesmo que na cabeça da mãe.

Por causa da barriga e das dificuldades que esta lhe impunha, ficava só pelo centro, na praça e calçadão. Dormia por ali, comia por ali, reclamava por ali, se drogava por ali. Ela ja contava dez meses de gravidez, mas na verdade ainda era o oitavo. A criança queria sair. E na noite mais fria do ano, ela manifestou sua vontade. Rompeu o que tinha que romper justo quando Santinha estava fumando. A correria dos dois mendigos que estavam juntos foi enorme. De uma hora para a outra, transformaram-se em salvadores, amigos e médicos. Ou pelo menos tentaram. Um largou a pinga e correu para a farmácia pedir ajuda. O outro ficou ali, meio atônito, mas quando a criança saiu, tomou um gole da pinga e a segurou .

Corta isso aí duma vez porra.
Eu não. Vai que mata.
Mata nada.

Pegou sua lâmina velha e cortou.

Me da aqui.
É um piá.
Um piazinho!
E vai faze o que com ele?
Faze o que... Vo cria né.

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