segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cruzada de fé

Talarico era um cara comum. Jovenzinho de uns catorze, bem sucedido entre os amigos, de família tradicional e conservadora. Tinha um tio meio maluco que sumia da sua vida de vez em quando. Uma vez Talarico vestiu a camisa de Jesus Cristo no estilo presbiteriano, influenciado pelo seu tio estranho. Quando digo que Talarico vestiu a camisa de Jesus Cristo no estilo presbiteriano, quero dizer que Talarico virou um crentão sem graça, daqueles que ia aos cultos todo domingo, lia a bíblia e tentava converter seus pais.

Antes de tornar-se um ser insosso, Talarico já se perguntava sobre a existência de algum deus, e corria atrás  da perca da virgindade. Era namorador, e essa era uma das maiores identidades dele. Era coisa de linha genética. Deus não muda uma coisa dessas, e mesmo participando da comunhão dos irmãos, ficava de olho nas irmãzinhas. Aliava o seu bom gosto pelas fêmeas, junto às exortações bíblicas sobre relacionamentos santos somente heterossexuais.

Como era um cara "ajeitado", de autoestima pendente ao narcisismo, acabava flertando regularmente com algumas garotas de bíblias embaixo do braço. Essas eram aquelas que uniam a santidade à beleza secular.

Não demorou muito para pescar a que era considerada o maior peixe da congregação, e logo saíu exibindo a conquista pela igreja, causando inveja aos fiéis.

Talarico gostava um pouco dela no começo, mas com o passar do tempo foi se tornando mais servo do senhor, e ela o acompanhava nessa jihad egocêntrica, o que fazia com que, aparentemente, os dois se entregassem mais ao relacionamento, até aí sempre tentando ser santo, diga-se de passagem. E assim foi. As famílias se conheceram, alianças foram trocadas, juras de amor bíblico (sempre eterno e incorruptível) foram ditas, até que o namoro começou a ficar com ares de namoro sério, não pelas doutrinas cristãs, mas pela troca de palavras e sentimentos.

A mãe da namoradinha de Talarico começou a preveni-lo sobre uma má notícia que vinha a cavalo. Coisa de crente mesmo. Premonição, visão, encosto, revelação, o diabo a quatro. Talarico permanecia firme na rocha do senhor. Até que começou a desconfiar. Parecia que as duas famílias guardavam um segredo colossal. O clima era cada vez mais tenso a cada encontro que reunia os familiares com os namorados. O segredo foi revelado pela sogra, sempre participativa na intimidade do casalzinho.

Era caso de doença. Sua parceira estava doente, e ele quase ficou. A doença era uma leucemia, cuja gravidade não é necessária ser introduzida ao texto. Talarico desfaleceu em lágrimas, orava por horas a fio pedindo ao seu novo fiel deus para que intervisse na enfermidade. O clima ficou péssimo, mas não por muito tempo, pois a cura era certa segundo a Bíblia, e Talarico confiava nela cegamente. Segundo ela, Deus era onipotente. E o tempo foi passando, Talarico orando, as famílias se compadecendo da situação, a assembléia toda já sabendo e o pastor fazendo cruzadas de fé pela cura.

A menina não demonstrava sinais de melhora, mas também não piorava. Estava na mesma situação de antes. A doença não avançava com o tempo, o que era algo bom, mas começou a dar espaço para alguma desconfiança. Talarico não desconfiava, nem da sua Bíblia e nem da mulher que tratava por futura esposa. Começou a ama-la perdidamente. Enlouqueceu por elas, doença e namorada.

Bastante tempo passou desde que a notícia da doença foi compartilhada com todos. A família de Talarico já era descrente da legitimidade da enfermidade. Aí deu-se o início de uma guerra. Talarico virou as costas para a própria família, que tentava convence-lo da falsidade do diagnóstico. A coisa ficou feia, o afastou da família e o aproximou da sogra que, com todas as forças tentava mostrar o quanto a filha estava sofrendo, se acabando numa depressão que ninguém percebia. Ele, abestalhado com a cena abatedora, concordava com tudo isso de olhos e ouvidos tampados.

As ditas cujas conviviam muito bem, menina, doença e estória. E isso foi sendo jogado na cara dele pela família, cada vez com mais frequencia.

A situação foi ficando insustentável. A família de Talarico achou que era necessário um ultimato. Se estava doente, que fossem revelados os diagnósticos médicos. Chega de falácias, chega de fé divina. O menino que só enxergava a medicina divina como um meio de provar a doença, foi desafiado pela medicina do homem.
Até boa parte da igreja compartilhou dessa ideia, vejam só, que fé inabalável. E Talarico aceitou o desafio. Tinha o seu deus como fiel escudo contra o que chamava de tramas do satanás. Quis ver o diagnóstico terreno para poder esfrega-lo junto com a bíblia na cara da própria família.

Meu amor, vamos mostrar pra eles, mostre o resultado do exame.
Ah, não precisamos disso. Você acredita em mim, e acredita em Deus, sabe que ele vai me curar.
É claro que eu sei, mas vai ser uma prova do Senhor de que ele pode curar você dessa Leucemia.
Eu e minha família sabemos da doença que eu tenho. Você também sabe, Deus sabe, e vai me curar.
Vai sim, mas eu também quero ver esse papel.
Você está duvidando de mim.
Não, não estou, mas preciso ver isso e mostrar isso pra minha família. Eles estão me cobrando, e vai ser bom provar pra eles.
Vou falar com a minha mãe, ver se ela ainda tem o papel do exame.

Diz-se, até hoje, que ela perdeu o papel. A igreja exigiu o aparecimento deste, coisa que aconteceu, e o resultado já era visto. Eles terminaram o namoro, a igreja presenciou um ato novelesco de dissimulação e a cruzada de fé acabou.


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