segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Passado, Alan Pauls.

É um livro um pouco complicado, até mesmo pelo estilo ortográfico do autor, e tem um enredo fantástico e corriqueiro ao mesmo tempo. Quando comecei a ler, não vi muito sentido no título do livro, porém com o andamento da leitura é fácil perceber.

A história é de um cara (Rímini) e suas muitas paixões - ou devo dizer amores? - que parecem ter sido pautadas pelas fases da sua vida, mas que em momento algum deixou de receber a influência da sua primeira namorada (Sofía). Resquícios dessa primeira paixão, que foi avassaladora e durou mais de uma década, ficaram encrustados na personalidade e estilos de vida do personagem principal, desde a sua profissão, até sua maneira de responder. Rímini terminou com Sofía sem grandes motivos, o que a revoltou e também seus círculos familiares e de amizades. O relacionamento deles era tão sólido e admirado que chegava a ser tido como patrimônio da humanidade por quem os conhecia. Sofía nunca entendeu o rompimento, e Rímini também nunca conseguiu explicar. Envolto nesses fantasmas do passado, a história se passa dando a entender que Sofía ficou estagnada nas lembranças e não queria abrir mão de tudo o que os dois construíram juntos, e Rímini, por sua vez, também não conseguiu desvencilhar-se completamente - Sofía volta e meia o atormenta exigindo explicações e que ele ao menos separasse as milhares de fotos que tiraram juntos. Com os hábitos mais desregrados, descritos maravilhosamente pelo autor, Rímini acabou mudando de vida na tentativa de obter alguma amnésia mágica que varreria a vida que levou com Sofía da sua mente. Ele simplesmente se deixava levar, o que com o passar do tempo se torna desesperador para o leitor, e esses hábitos heterodoxos e histórias paralelas em que se mete dão um tempero sensacional ao livro.

Pensando assim, parece só mais um melodrama comum, mas de forma alguma é. Cocaína, masturbação compulsiva, desmaios, porres, homossexualismo, história da arte, aulas de tênis, rehab. A obra contém tudo isso e reviravoltas lindas. Alan Pauls foi tão genial ao criar uma espécie de livro à parte, dentro de um capítulo, só para explicar a vida, o estilo e as histórias das obras do pintor Riltse - que desde o início da relação, foi idolatrado pelo casal e fez parte da sua história - que a reação ao terminar esse capítulo, é correr para o google e pesquisar sobre o pintor, que não existe.

O estilo do autor é intrigante, pois lembra um pouco Saramago colocando frases dentro de frases fazendo com que as orações pareçam não acabar nunca. Isso torna a leitura um pouco cansativa em certos momentos, mas na verdade o autor está apenas explicando a gigantesca e absurda gama de sentimentos dos seus personagens de uma maneira extremamente meticulosa e realística. Nunca havia lido algo parecido. É aí que você sente o tesão pelo livro, que foi absurdamente bem escrito.

O livro é da Cosacnaify. Leitura obrigatória para junkies que se perdem fácil em relacionamentos.

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